35th Bienal de São Paulo
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Aline Motta

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https://youtu.be/6AWIZPgi324

“Estou grávida da minha mãe. Chegou a minha vez de te carregar na barriga.” 

Essa é a primeira frase do filme de Aline Motta. E não é só o filme que se apresenta para nós, há também um grande holograma da mãe de Aline. Em uma imagem em preto e branco, a mãe está sentada em um banco. Ela é uma mulher negra, com cerca de 25 anos.  Está com as mãos apoiadas sobre as coxas e nos olha com ternura. Seus olhos piscam e seu tórax se movimenta levemente enquanto respira.

Aline Motta nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1974, e mora em São Paulo. Combina diferentes técnicas e práticas artísticas em seu trabalho, como fotografia, vídeo, instalação, performance e colagem. De modo crítico, suas obras reconfiguram memórias, em especial as afro-atlânticas, e constroem novas narrativas que evocam uma ideia não linear do tempo.

Em uma de suas provocações, a artista nos questiona: “Se quebro com o silêncio, que identidades se tornam possíveis? O que pode vir à tona quando estou à procura de mim mesma? Entre os sussurros dos que vieram antes de mim, os espaços que foram impedidos de ocupar, as narrativas que foram borradas, o que resta como possibilidade de expressão e linguagem?”

O filme, de 31 minutos, começa com a Baía de Guanabara em um dia cinzento, com o mar turvo e a ponte Rio-Niterói ao fundo. Sobre essa imagem surge o título: “A ÁGUA É UMA MÁQUINA DO TEMPO”. Nele, Aline Motta compõe um fluido mosaico a partir de registros históricos e tece uma intrincada rede de diferentes planos temporais. 

Ela evoca imagens atuais e históricas da Baía de Guanabara. Transita como um fantasma pelo centro histórico do Rio de Janeiro, passa por igrejas históricas da cidade, chega ao cemitério São João Batista e depois aos arcos da Lapa.  O passado e o presente se encontram em cartas e bilhetes, em sussurros de línguas ancestrais, entre os caminhos que fazem as águas.

Fotos antigas do Rio de Janeiro são manipuladas: um navio tinge o mar de vermelho, pessoas somem, letreiros se desfazem. Essas fotos se intercalam com imagens atuais da cidade com seus prédios, carros e avenidas. Nesse percurso, ela passa pela tristeza da perda de sua mãe até chegar ao Rio de Janeiro no final do século dezenove. Passa por fragmentos documentais que meticulosamente ressuscitam as vivências de Ambrosina e Michaela, suas antepassadas. 

Em alguns momentos, letreiros surgem na tela e também contam a história. Em um deles se diz: No Rio de Janeiro, residente à Rua Evaristo da Veiga, 43, faleceu hoje às sete horas da manhã, de tuberculose pulmonar, Ambrozina Cafezeiro Gomes, cor parda, de 37 anos, casada, natural da Bahia, Brasil. Faleceu sem testamento e deixou sete filhos. Fotos de família e imagens do mar agitado também pontuam a narrativa. Em alguns momentos também vemos Aline Motta, sempre de costas. 

Unindo de forma ímpar criatividade e investigação, a artista revela as diversas maneiras pelas quais a herança colonial provoca borrões em nossa narrativa histórica. Sobre o texto que deu origem ao filme, Ricardo Aleixo diz o seguinte: “Na busca por dar forma a essa tentativa de capturar o talvez inexprimível – os espaços vazios, as rachaduras, os vincos, os elos invisíveis, os recantos escondidos da história –, Aline nos presenteia com uma obra que, em suas próprias expressões, resulta de um processo criativo tão apaixonado e desgastante que poderia ser facilmente categorizado como uma espécie de domínio.”